sábado, 19 de junho de 2010

Entrevista - Mais de 50 - 19/08/2004

São 38 anos de profissão, mais de 35 novelas, atualmente em cartaz com a peça Veneza, em São Paulo. Assunto não falta para conversar com Arlete Salles. Ultimamente, as entrevistas que saem na imprensa sempre passam pelo tópico envelhecimento, como ela mesmo lembra, ao ser perguntada sobre o tema. "Não sei porque me questionam tanto sobre isso, se é porque está na moda falar de envelhecer ou se os repórteres gostam da minha história", justifica. A história a que Arlete se refere diz respeito a quando sentiu pela primeira vez o peso da idade, aos 40 anos, quando foi abalada por uma síndrome do pânico. Desde então, ela assumiu que a velhice, apesar de assustadora, não deve ser antecipada. Hoje, aos 62, vive o presente com toda intensidade.


Você tem uma maneira particular de lidar com o envelhecimento?
Quando penso em envelhecer, imagino a morte e sou atirada no vácuo, em pânico. Mas sei que não é inteligente antecipar as coisas, pensar em velhice de véspera. Prefiro então pensar no que é viver, no sagrado que há na natureza, no estar aqui. Penso em ler livros, nos meus amigos, na família e imediatamente me recoloco em meu lugar.


Como você lida com as perdas que não estão ligadas ao envelhecer, mas ao viver?
Nunca vivi a morte de alguém muito próximo, mas vivi perdas sentimentais grandes, como dois casamentos desfeitos e com filhos. É de rasgar o coração, ter que juntar os pedaços e refazer a vida. Foi um dos momentos mais difíceis da minha vida.
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Gosto muito da palavra resiliência, usada muito pela psiquiatria. Quando um aço ou ferro é submetido a um forte calor, se dissolve e você pode transformá-lo em uma bela peça. As perdas são ruins mas podem trazer isso de positivo. Pior se a pessoa não tem forças para enterrar as dores e se renovar.
 
Você se considera uma pessoa melhor hoje do que na juventude? Não há como dizer que a juventude não seja maravilhosa. É linda, pena que estejamos tão atormentados, tão cheios de inquietações quando a vivemos. Agora que estou mais centrada, mais harmonizada para lidar com a vida, o tempo urge. E o fato de estar melhor não significa que eu me saia bem em todas as coisas. A vida é muito dinâmica e tem horas em que deito para chorar intensamente, impotente diante de meus problemas. Existem coisas que nem todo o preparo e a vivência do mundo socorrem. Viver é um aprendizado constante.

Existe alguma coisa mais importante que aprendeu?
Não existe uma só coisa, porque viver é um processo de aprendizagem, de estar constantemente atento, sensível ao que nos cerca. Por exemplo, esta semana, conversando com minha mãe, lembrei que nunca fui ao cemitério chorar a morte de um familiar próximo, nunca tive essa perda. Não sei o que é nunca mais ver a pessoa que você ama. Meus filhos e minha mãe estão todos vivos, comigo, graças a Deus, espero que a vida siga seu curso normal e que estejam muito tempo próximos. 

Sua família tem uma importância muito grande na sua vida. E a amizade, o que é, para você?
Acho que a amizade é igual para todo mundo, é a eleição do coração. Amigos são presentes de Deus, familiares são impostos, às vezes, sem grande identificação de alma. É verdade que não tenho muitos amigos, trabalho muito e sou caseira. Mas tenho grandes amizades e não preciso vê-los sempre para saber que o reencontro é sempre mágico, as almas fluem, e o carinho se conserva intacto. É uma questão de qualidade e não de quantidade de encontros. 

Você fala muito nas questões existenciais. Qual a sua religião?
Não tenho religião. Estou nessa busca de todo homem pela minha verdade, mas não tenho a carência do guru, de um mentor religioso. Minha família é católica e evangelista, acredito em Jesus como também gosto dos preceitos do budismo, porque se preocupa com a felicidade do homem sem cobranças. Embora ache a última uma filosofia difícil. É preciso estudar, se dedicar, não posso dizer que sou budista porque li um livro ou outro. 

Qual seu maior defeito e qualidade?
Ansiedade é o defeito. Uma qualidade? Acho que sentimentos delicados, solidariedade. (Pergunta para a mãe, que está perto) Qual minha qualidade, mãe? Ela disse que é querer ser boa demais. Tenho medo de magoar as pessoas que amo, sou cuidadosa. Se tiver que falar uma verdade que vai incomodar, eu rodeio. Fico preocupada, principalmente, com os que estão em uma posição inferior à minha. Quase como se fosse uma obrigação. É uma questão de caráter.

Você nasceu no interior de Pernambuco, teve filho aos 16 anos, casou logo depois e viveu, como toda sua geração, uma mudança de valores em relação ao sexo e às relações amorosas. Como você vê essa transformação?
Acho que, por mais que haja uma exposição, muitas vezes, exagerada na mídia, acho bom que os tabus foram quebrados, assim como o preconceito. Era cruel. Sexo era feio, imoral. Não que as coisas hoje tenham se tornado fáceis, mas estão sendo tratadas de maneira menos hipócrita. Os jovens estão casando mais, namorando mais, buscando a maternidade. Vejo meus filhos, por exemplo, são mais tranqüilos do que na minha época sobre os relacionamentos. Eles me procuram para falar dos namoros e casamentos. Eu sou mais reservada para falar com eles e com minha mãe. Acho que até seria bom se pudesse conversar sobre vida íntima e meus namorados com minha família, mas sinto que não pega bem, tive uma educação mais rígida, além de não fazer parte do papel de mãe conversar com os filhos sobre esses assuntos. 

E sobre a carreira, você se sente realizada profissionalmente e financeiramente?
Poderia estar melhor, economicamente, sobretudo, se vivesse em outro país (risos). A gente sempre acha que faltam coisas, sempre deseja mais, é importante para viver. Ainda assim, me considero com sorte, conquistei um espaço muito bom. 

Quais seus planos para o futuro?
Não sou do tipo de falar dos meus sonhos, acho que se revelar, estraga. No âmbito geral, quero saúde e continuar trabalhando. 

Você falou em uma entrevista que descobriu o salto alto aos 60 anos e se sentiu mais elegante, mais sensual. Como você lida com sua imagem?
Foi um prazer muito grande a redescoberta do salto alto. Tenho 1,68 e, nas primeiras tentativas, caminhava mal, ficava cansada. Mas foi um investimento em minha imagem, como a plástica que fiz e nunca neguei. Não há nada de imoral, olhei no vídeo e não gostei da minha imagem. Não sei se ajudou profissionalmente, meu objetivo era comigo mesma. Mas é preciso cuidado, não concordo com a loucura de fazer plástica todo ano. 

E quais os cuidados que escolheu para sua saúde?
Não fumo, só bebo socialmente, tomo bastante água, como pouco e faço musculação, aeróbica e corrida na Lagoa, depende do dia. Acho que toda pessoa tem três idades: cronológica, física e espiritual, todas estão relacionadas à saúde. Minha idade cronológica você sabe, a física, me considero bem conservada. E enquanto todo mundo quer ter um espírito jovem, eu peço a Deus que eu tenha um espírito bem idoso –e sábio - para me ajudar.

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