terça-feira, 29 de junho de 2010

Um orgulho pernambucano - 29/11/1997

Homenageada no festival de teatro, Arlete Salles volta à terra natal como atriz realizada!

Exatamente ao meio-dia Arlete Salles surge exuberante no hall do hotel onde esteve hospedada, no último final de semana, no Recife. Cabelos louros, roupa preta e uma silhueta muita bem trabalhada chamam a atenção por onde ela passa.

Aqui e acolá o cumprimento de um fã. Eles chegam junto, conversam alguma coisa e saem deslumbrados. Foi assim também na noite do dia 20, quando a atriz subiu ao palco do Teatro do Parque, como a grande homenageada do I Festival Recife do Teatro Nacional. O público a aplaudiu de pé.

Arlete Salles virou um símbolo de orgulho dos pernambucanos. Foi aqui, por volta de 1955, que a filha de Dona Biu de Paudalho começou sua carreira na Rádio Jornal do Commercio. Nove anos depois colocaria o pé na estrada para o sucesso nacional. Quem não se lembra da Kika Jordão, de Lua Cheia de Amor, da Carmosina, de Tieta, e, mais recentemente, da Anabel, de Salsa e Merengue? No momento ela ainda pode ser vista na tela da Globo vivendo a Margarida, na reapresentação da novela Fera Ferida em Vale a pena ver de novo.

Além da televisão, Arlete Salles ganhou fama, dinheiro e amadurecimento profissional no teatro, na peça A Partilha, escrita pelo seu amigo Miguel Falabella. Dele também, numa parceria com Maria Carmem Barbosa, a atriz produziu e atuou em Todo mundo sabe que todo mundo sabe, outro êxito de público e crítica, que deverá chegar aos palcos recifenses entre março e abril do próximo ano. Na televisão, ela acaba de gravar um dos episódios da nova série Mulher, dirigida por Daniel Filho e incluída entre os lançamentos da TV Globo para 98.

Nas próximas semanas, a atriz interpreta uma cartomante na minissérie Hilda Furacão, também prevista para o próximo ano, e em maio volta à mais uma novela, Escândalo, de Miguel Falabella. Fará ainda sua estréia no cinema, convidada por Daniel Filho, numa filmagem de A Partilha.

Na rápida passagem pela cidade, ao lado da amiga e novelista Ana Maria Moretzon, Arlete Salles aproveitou para matar saudades de alguns cantinhos e sabores (um deles é feijão de corda com carne-de-sol) que não saem nunca de sua lembrança. Foi até Olinda, Maria Farinha e Porto de Galinhas. "A cultura de sua terra é muito forte na formação de uma pessoa", disse, selando seu amor pelo seu lugar de origem.

"É muito bom voltar pra casa"


DIARIO DE PERNAMBUCO - Como é que você encara todas essas manifestações de carinho por parte dos pernambucanos?

ARLETE SALLES
- Isso provoca na minha alma um profundo sentimento de plenitude, como se estivesse voltando para minha casa, confiante, recebendo o abraço e o carinho dos meus familiares. É uma coisa que esquenta muito a alma e o coração. É o chamado aconchego. É importante para você que emigra e retorna, contar com a aprovação dos seus conterrâneos.

DIÁRIO - O que você ainda conserva de suas origens?

ARLETE SALLES -
O artista tem alma cigana. Ele gosta de estar no lugar onde possa exercer o seu ofício. Agora, depois de passar tantos anos no Rio de Janeiro estou com duas terras. Para mim não faz muita diferença ser enterrada aqui ou lá. Mas nunca houve um desligamento, um rompimento com as minhas raízes. Tive aqui uma iniciação muito boa.

DIÁRIO - A montagem teatral de A Partilha trouxe você de volta à cena. Foi um dos seus trabalhos mais importantes?

ARLETE SALLES -
Foi. Não só para mim, mas para todos que estiveram ligados à montagem. Foi quando o Miguel (Falabella) apareceu dentro da dramaturgia brasileira como um dos grandes autores de sua geração. Foi o encontro com a minha arte. A peça trouxe todas as gratificações que a arte dramÁtica pode nos dar, como dinheiro e prestígio.


DIÁRIO - Miguel Falabella é o seu anjo da guarda?

ARLETE SALLES -
Ele é um amigo adorado e que tem uma identificação profissional e humana comigo. Ele surgiu quando eu entrava na minha maturidade pessoal aos 50 anos. É um momento muito perigoso nesse país. Nessa idade se chega à hora da competência. Você não tem mais a gracinha dos 20 anos. É um instante delicado. Você não pode ficar no bastidor da vida e da profissão. Miguel, então, trouxe um novo vigor para a minha carreira. Ele descobriu em mim um potencial que eu mesma desconhecia, dizendo que eu era uma comediante rara. Adquiri mais segurança, alegria e felicidade.

DIÁRIO - Hoje você se identifica mais com a comédia do que com o drama?

ARLETE SALLES -
Acabei de fazer uma personagema altamente dramática, com o Daniel Filho, nessa nova série, Mulher. Fiz uma doente terminal de câncer lutando pelo direito à eutanasia. Olha, que coisa delicada, uma discussão sobre a morte. Foi um papel muito diferente das coisas que ultimamente andei fazendo. Acho que não apenas eu, mas o ator de um modo geral, gosta de bons personagens. Agora, a comédia é a forma mais suave de se falar de coisas sérias.

DIÁRIO - Na TV têm aparecido muitas caras novas, principalmente modelos tentando ser atriz. Isso não prejudica o trabalho de uma pessoa experiente como você?

ARLETE SALLES -
Eu também já fui uma cara nova, desconhecida, e gostei, porque me deram uma oportunidade. Pode existir o excesso mas tem alguns modelos com talento. Sempre houve essa busca por um rosto bonito seja na televisão ou no cinema. É agradável ver um rosto bonito. Quando ele tem talento ainda fica mais interessante. É claro que não há uma troca perfeita. O jogo não fica tão bom quanto você contracenando com um ator experiente, mas tem que haver generosidade.

DIÁRIO - Falando assim há a impressão de que você é muito mãezona.

ARLETE SALLES -
Sou mãezona. É um traço forte da minha personalidade. Tenho dois filhos, dois netos e uma das coisas que mais me dá prazer na vida é ficar ao lado deles. Sou muito democrática. Todo mundo tem direito a exercer suas opiniões, suas idéias. Às vezes eu dou uma opinião e é só. Sem exercer nenhuma interferência direta nos meus filhos. Agora, minha mãe é pernambucana com toda a autoridade que lhe é peculiar.

DIÁRIO - Durante a cerimônia de abertura do Festival de Teatro, mesmo estando ao lado do vice-presidente da República, Marco Maciel, você criticou o atual momento político vivido pelo país.

ARLETE SALLES -
Não foi uma crítica. É uma realidade. Existe uma recessão em todo o país. E, nesses momentos, o teatro é o mais atingido porque, como arte, é supérfluo e supérfluo é imediatamente cortado. Então, o teatro está com dificuldade de público devido à essa recessão. Mas, em contrapartida, do ponto de vista artístico, o momento nunca esteve tão produtivo. Sou uma produtora de teatro. Sei o que está acontecendo no meio. Sei também que existem outros fenômenos, como o controle remoto, a TV a cabo, congestionamento de trânsito, o estresse do dia-a-dia. Tudo atinge não só o teatro mas a própria TV. A Rede Globo tinha uma audiência quase que absoluta com suas novelas e hoje fica lutando para ter uma maior audiência. O teatro está caro para o brasileiro. Um espetáculo de sucesso não fica mais de um ano em cartaz no Rio. Em São Paulo as temporadas de sucesso não ficam mais do que quatro meses.

DIÁRIO - Nós vimos na estréia do Festival de Teatro a acenação de A pedra do reino, de Ariano Suassuna, ser recebida com vaias. Qual sua opinião a respeito?

ARLETE SALLES -
A liberdade de manifestação de um povo tem que ser livre. Ela é preferível à passividade. Eu gosto do teatro de Ariano Suassuna. Ele é tão nordestino. É um dos grandes dramaturgos do país. E a vaia está presente em cinema, nos grandes festivais de música, teatro. Esse tipo de manifestação sempre existiu. Ela até dá mais calor.

DIÁRIO - Na televisão qual foi o personagem maismarcante até agora na sua carreira?

ARLETE SALLES -
Até por ser um personagem nordestino, por ter a alma da mulher nordestina, aquela pureza e ingenuidade que são características nossa, eu acho que foi a Carmosina. Ela me trouxe de volta às raízes. Pude liberar o meu sotaque, meu jeito de pernambucana. Por isso, ela saiu tão verdadeira. O sucesso alcançado foi devido à sua autenticidade.

DIÁRIO - Você se considera uma pernambucana forte, da gema?

ARLETE SALLES -
É impossível morar tantos anos numa outra cidade e não ser contaminado pela cultura daquela terra. Mas a minha essência pernambucana está lá. Não sei se sou da gema e se sou forte, mas tento ser.


Fonte: Diário de Pernambuco