domingo, 20 de junho de 2010

Hairspray - Notas

"HAIRSPRAY" já deixou os palcos brasileiros e vai deixar saudades, portanto, para relembrar um pouco, vamos ver duas notas antigas sobre o espetáculo. A primeira é do jornalista Mauro Ferreira sobre a estreia do musical no Rio de Janeiro; a segunda é do colunista Bruno Cavalcanti, sobre a estreia do espetáculo em São Paulo.


Seja bem vindo, mais uma vez, aos anos 60!


Hairspray é vibrante, apesar do elenco irregular 

Resenha de musical
Título: Hairspray
Autoria: Mark O'Donnell e Thomas Meehan
Música: Marc Shaiman e Scott Wittman
Direção e versão das letras: Miguel Falabella
Elenco: Simone Gutierrez, Edson Celulari, Arlete Salles,
Danielle Winits, Jonatas Faro e outros
Cotação: * * * 1/2
Em cartaz no Teatro Oi Casa Grande (RJ)
De quinta-feira a domingo, até 4 de outubro de 2009

Difícil não se contagiar pela vibrante atmosfera que rege a (boa) encenação brasileira do musical Hairspray, dirigida por Miguel Falabella com suposta fidelidade ao universo e às marcações da montagem norte-americana. Com um segundo ato especialmente inebriante, o espetáculo envolve o espectador e o deixa leve ao fim de suas duas horas. O que não quer dizer que a encenação - em cartaz no teatro Oi Casa Grande, no Rio de Janeiro (RJ), até 4 de outubro de 2009 - não tenha seus defeitos. O maior deles reside na equivocada escalação do elenco. Como já havia feito ao dirigir a montagem brasileira de Os Produtores, Falabella recruta atores que não cantam. No papel de Velma Von Tuslle, Arlete Salles apela para humor peculiar que remete à sua personagem no programa humorístico televisivo Toma Lá, Dá Cá. E, na hora de soltar a voz, ela não mostra habilidade para o canto. Assim como Edson Celulari, cuja caracterização como a gorducha Edna Turnblad vem sendo alvo de numerosas reportagens em jornais e revistas. Como Arlete, o ator nunca convence no papel já encarnado com mais propriedade pelo travesti Divine (no filme de 1988 dirigido por John Walters) e por John Travolta (no filme de 2007 dirigido por Adam Shankman). Falta a Celulari uma delicadeza no gestual e na fala que faça o espectador acreditar que se trata de uma mulher em cena - e não de um homem (tra)vestido de mulher. Tanto que a personagem Edna Turnblad parece minimizada na montagem brasileira, centrada totalmente na adolescente gordinha Tracy Turnblad, vivida com brilho por Simone Gutierrez, esta, sim, uma atriz que canta (e bem). E que representa bem, convencendo na adoração de Tracy pelo galã Link Larkin (Jonatas Faro, adequado ao papel). Muito do êxito do Hairspray nacional vem da feliz escalação de Gutierrez. Mas, justiça seja feita, o elenco negro dá show e também rouba a atenção do espectador quando está em cena. Bené Monteiro, como Seaweed, se revela perfeito como ator, cantor e dançarino. Ele tem voz, assim como Graça Cunha (no papel de Motormouth Maybelle) e como o trio feminino (Corina Sabbas, Karin Hills e Maria Bia Martins) que forma o explosivo grupo Dinamites. O elenco negro valoriza uma trilha sonora que nem sempre está à altura da história sobre a adolescente gorducha que desafia os padrões de beleza para cantar num programa de TV em meio aos conflitos raciais que agitavam a Baltimore (EUA) de 1962. Das 23 músicas compostas por Mark O'Donnell e Thomas Meehan, Bom Dia, Baltimore é que a mais fica na memória e a que mais garante a vibração desse esfuziante Hairspray brasileiro. Contagiante, apesar da irregularidade do elenco. Vale ir ao teatro!!

fonte: Notas Musicais

Vibrante, "Hairspray" envolve do início ao fim

Opinião de musical
Título: Hairspray
Elenco: Arlete Salles, Danielle Winits, Edson Celulari, Jonatas Faro, Simonte Gutierrez e grande elenco
Direção e adaptação de texto: Miguel Falabella
Local: Teatro Bradesco - São Paulo (SP)
Data: 27 de fevereiro de 2010 (em cartaz até dia 13 de junho)
Cotação: ****


Musical de John Waters escrito originalmente para o cinema e, mais tarde, adaptado para os palcos da Broadway, Hairspray chegou ao Brasil em 2009 com direção e adaptação de Miguel Falabella. Com estréia ocorrida em 26 de fevereiro de 2010 em São Paulo (o musical estreou no Rio de Janeiro em 2009), Hairspray voltou à cena mais enxuto e alinhado. Vibrante e envolvente do início ao fim, Hairspray é um dos grandes espetáculos que aporta na capital paulistana neste primeiro semestre de 2010.
Logo no início do espetáculo já é possível se animar com a história da jovem Tracy Turnblad (interpretada por Simone Gutierrez) ao interpretar “Bom Dia, Baltimore” (“Good Morning, Baltimore”). Cada cena dava à platéia a real sensação de estar participando da vida da jovem garota gorda que sonhava em ser dançarina do Corny Collins Show que, aliás, agregou um ótimo elenco em seu núcleo. O próprio apresentador Corny Collins era vibrante, o que realmente dava a boa impressão de se tratar de um programa de auditório com um bom apresentador. Alardeada pela mídia, a transformação de Edson Celulari de galã de novela para a dona de casa obesa Edna Turnblad foi realmente espantosa. O ator conseguiu dar vida à personagem, contando com trejeitos e delicados movimentos, o que não deu a impressão de vermos no palco simplesmente um homem (tra) vestido de mulher.
O musical foi regado a piadas que, hora apelativas, hora inteligentes, funcionaram muito bem, sobretudo quando eram ligadas às canções interpretadas em cena. O elenco também foi um grande show à parte. Fora dos grandes holofotes, o dito “elenco de apoio” mostrou afinação ao cantar e grande habilidade ao dançar nas mais de 2 horas de espetáculo.
Vilã da história, Velma Von Tussle foi bem interpretada por Arlete Salles que, mesmo sem ter vocação para o canto ou a dança, compensou sua “deficiência artística” com ótima interpretação da vilã da história, que protagonizou cenas hilárias, mesmo que regadas a conotações sexuais que faziam lembrar sua personagem no humorístico Toma Lá, Dá Cá, a espevitada Copélia. Danielle Winits, infelizmente, não conseguiu se destacar ao dar vida À Amber, filha de Velma. A personagem acabou por ficar insossa e pouco confortável em cena. Nem ao menos a interpretação de “Xexelenta” (“Cooties”) conseguiu fazer com que o público se empolgasse com a atriz.
O musical é tão emocionante quanto o filme (o original, de 1988, e o remake de 2007). Prova disso são ótimos números como “Bem Vinda aos Anos 60” (“Welcome the 60’s”), “Eterno pra Mim” (“Timeless to Me”), “Eu Ouço os Sinos” (“I Can Hear the Bells”), “Não Vamos Parar” (“You Can’t Stop the Beat”), “Eu sei de Onde Vim” (“I Know Where I’ve Been”) e “Sem Amor” (“Without Love”) que deram ao espetáculo a força necessária, assim como os números “Prisão” (“Jail”) e “Miss Carangueijão” (“Miss Baltimore Crabs”) deram a graça e a leveza necessárias.
Dividido em dois atos, Hairspray é vibrante e especialmente envolvente e emocionante. É impossível não ficar atento e deixar as lágrimas rolarem em determinados momentos, seja o solo de Graça Cunha ao interpretar Motormouth Maybelle, seja ao ver Edna Turnblad e Wilbert Turnblad declarando amor eterno (mesmo com ótima piada improvisada por Edson Celulari quebrando o momento emocionante). Vale à pena se entregar à emoção e aos efeitos (realmente) especiais presentes em cena. Assim como os gigantescos cenários, que davam a verdadeira impressão de que os musicais brasileiros nunca deveram ou deverão nada aos montados e encenados na Broadway.
Grande surpresa do espetáculo foi o ator Jonatas Faro, que deu vida a Link, o mocinho da história. A interpretação e a voz de Jonas deram ao mocinho a simpatia e empatia que Zac Efron não conseguiu dar no filme de 2007. É verdade também que as Dinamites não são tão envolventes quanto as do filme, e que tanto a pequena Inês quanto Seaweed soam pouco envolventes em cena, mas ainda assim não fazem com que o espetáculo deixe de crescer, assim como Penny Pingleton começa pequena e pouco envolvente, mas depois ganha seu espaço no grande musical.
Enfim, Hairspray é vibrante e envolvente e, mesmo com suas (poucas) falhas, pode ser considerado um dos melhores musicais já montados em palcos brasileiros. Vale (e muito) à pena conferir.