sábado, 26 de junho de 2010

Entrevista - Site Terra - 02/07/2005

Até pouco tempo, a informática era um bicho de sete cabeças para Arlete Salles. A atriz não sentava ao computador nem para jogar paciência. Menos ainda para mandar e-mails ou "navegar" pela rede.

Mas, quando soube que a Ademilde, de A Lua Me Disse, procurava namorados pela Internet, aceitou ser apresentada a esse "ilustre desconhecido": o computador. Protegida pelo codinome de sua cachorra Kika, resolveu participar de inúmeras salas virtuais de bate-papo.

"Fiquei espantada quando me contaram que existem pessoas ali que passam as noites em claro à procura do companheiro ideal. Pessoalmente, ainda prefiro o método antigo, do olho no olho...", brinca.

Aos 62 anos, Arlete está de volta aos papéis cômicos depois de interpretar duas vilões na tevê: a Zenilda Paixão, de Sabor da Paixão, e a Augusta Eugênia, de Porto dos Milagres.
Embora garanta que não faça distinção de gênero, admite que os tipos mais engraçados, como a Kika Jordão, de Lua Cheia de Amor, e a Francisquinha, de Pedra Sobre Pedra, são sempre os que tocam mais profundamente o coração do público.

"Claro que os pequenos dramas do cotidiano me atingem como atingem a todo mundo. Mas, se você tiver o coração e a alma sempre abertos, vai conseguir se levantar, seguir em frente e, quem sabe, amanhã ou depois, rir dos próprios infortúnios", filosofa.

Muito da vivacidade de Arlete Salles se deve ao fato de estar trabalhando, pela sexta vez, com Miguel Falabella. Juntos, já fizeram uma novela, Salsa & Merengue, e quatro peças, A Partilha, Todo Mundo
Sabe que Todo Mundo Sabe
, A Vida Passa e Veneza.

"O Miguel foi um grande presente que a vida me deu", derrama-se. O próximo projeto da dupla deve ser Polaróides Urbanas, versão em película de Miguel Falabella para a peça Como Encher Um Biquíni Selvagem, de sua própria autoria.

"Até pensei em adaptar um Bernard Shaw quando a novela acabasse, mas o Miguel já quer começar a rodar em outubro. Meu Deus do céu, esse homem não sossega nunca...", graceja.


Para fazer a novela, você teve de ser "apresentada" ao computador. Já se considera uma especialista no assunto?
Ah, de jeito nenhum... (risos) Jamais chegarei lá. Não tenho qualquer intimidade com computadores e desconfio de que jamais venha a ter. Mas, como na história a Ademilde procura namorados pela Internet, eu tinha de saber como essa coisa funciona, não é mesmo? Para que ninguém desconfiasse da minha identidade, usei o nome da minha cadela. Mesmo assim, prometo que, assim que terminar a novela, eu vou me informatizar, comprar meu micro, mandar uns e-mails... Imagina, daqui a pouco, escrever cartas vai virar uma heresia... (risos) Enfim, para evitar que isso aconteça, vou virar uma internauta...

Mas, a exemplo da Ademilde, você seria capaz de sair à procura de um namorado na Internet?
Nem pensar... Garanto que não vou ficar na sala de bate-papo procurando namorado às oito da manhã. Isso, definitivamente, não combina comigo. Mas não tenho nada contra quem faça. Aliás, até já ouvi falar de alguns encontros bem-sucedidos nesse sentido. Mas, modéstia à parte, já vivo um encontro muito bem-sucedido... (risos) Brincadeiras à parte, nada substitui o olho no olho, entende? Você olha para a pessoa e gosta dela ou não. Como isso pode acontecer diante de um teclado de computador? Sinceramente, não sei responder. Mas acontece, né? O amor não tem regras...

Além dessa busca frenética por um grande amor nas salas de bate-papo, o que mais chamou a sua atenção na Ademilde?
Olha, o que mais alegra o coração de um ator é quando ele encontra um personagem que tem carisma popular. E a Ademilde, sem sombra de dúvidas, é muito carismática. Ela chega facilmente ao coração das pessoas. E sabe o porquê disso? Porque ela é humana, verdadeira, engraçada... Como se não bastasse, ela ainda vende qualquer coisa. Sou do tipo que morre de vergonha de oferecer qualquer tipo de produto para quem quer que seja. Desconfio que eu não seria capaz sequer de vender água no deserto...

Mas, depois de 45 anos de carreira, você ainda consegue se empolgar com um novo trabalho?
Nossa, mas é claro que sim! A paixão move o trabalho, assim como move a vida. E eu procuro estar sempre apaixonada por tudo que faço. Assim sendo, toda personagem que recebo para interpretar é uma pessoa nova que chega na minha vida. É uma criatura desconhecida que me confiam para decifrar. E esse processo é extremamente fascinante. É e acredito que sempre será. Aliás, é justamente no fascínio de decifrar os personagens que encontro pela frente que repousa o encanto da minha profissão.

Você volta a interpretar um tipo cômico depois de duas vilãs. Há preferência por algum gênero específico?
Absolutamente. A minha preferência é por bons personagens. Se o personagem for bom, não importa o gênero a que ele pertença. No entanto, fazer rir, é bom que se diga, suscita mais simpatia das pessoas. O público não só se simpatiza com quem lhe faz rir, como chega a ficar grato a ele. É por isso que gosto tanto de trabalhar com comédia. Entreter o público faz bem à minha alma e ao meu coração. Além disso, fazer comédia sempre me remete à criança que mora dentro de mim. Mas não pense você que fazer comédia é fácil porque não é. Se não tomar cuidado, fica caricato, perde a credibilidade. Pessoalmente, não gosto da piada fácil, do riso pelo riso.

Quando você descobriu sua vocação para a comédia?
Não descobri. Descobriram para mim. Quando vi, minha carreira já estava ficando marcada pelo toque da comédia, tanto na tevê quanto no teatro. Mas, fora os personagens que interpreto, também me considero uma pessoa bem-humorada. A vida sem humor torna-se insuportável. Gosto do riso. Desconfio, aliás, que o riso seja o som favorito de Deus. Mas gosto de encarar a vida com esperança, de ver o que a vida tem de melhor... Mesmo que os dias sejam difíceis, se a sua alma e o seu coração estiverem abertos, você vai ser capaz de se levantar, seguir adiante e, quem sabe, amanhã ou depois, ainda dar uma gargalhada dos infortúnios que enfrentou. O humor é a grande bússola da vida. Não tenha dúvidas disso...

Mas a idade, por exemplo, não é algo que preocupa você?
Olha, quando fiz 50 anos, confesso que me desesperei. A ponto de parar tudo e racionalizar a situação. "Mas, peraí", pensei eu, "isso é apenas um número, vou dormir e acordar amanhã do mesmo jeito..." Mas, vamos e venhamos, que envelhecer é ruim. Não pode ser bom. Não venham me dizer que velhice é uma coisa boa porque as limitações físicas que ela impõe já dizem por si só. Ainda assim, torço para que a velhice me encontre serena e que eu possa aceitar com resignação as minhas limitações. Não gostaria de deixar de apreciar as coisas bonitas da vida. Profissionalmente, espero continuar trabalhando sempre. Se possível, até o último minuto. A menos que eu fique rica e possa viajar pelo mundo todo.

Você e o Miguel se conhecem há quase 20 anos. Quando se encontraram pela primeira vez?
A gente se conheceu durante as gravações de uma novela do Aguinaldo Silva chamada O Outro. Ali, eu até fazia um personagem meio periférico. Para falar a verdade, nem fui muito bem na novela. Mas eu costumo dizer que, se a gente pode falar em destino, a finalidade de O Outro foi me aproximar do Miguel. Foi ali que a gente se conheceu e, principalmente, foi ali que surgiu a idéia de ele escrever A Partilha. Hoje, inclusive, já temos até um projeto de remontar a peça com o elenco original. Dali por diante, não nos largamos mais...


Mas a que você atribui o sucesso dessa parceria?
Já falei algumas vezes da identificação que eu tenho com o trabalho dele e, no campo pessoal, acho que nem preciso falar mais nada. O Brasil todo já sabe que somos amigos e, mais do que amigos, somos irmãos... É uma felicidade muito grande ser uma das atrizes favoritas do Miguel. Ele, inclusive, costuma dizer que já ouve a minha voz quando está escrevendo o texto da Ademilde. Que ator não se sentiria honrado com um elogio desses? Eu poderia até ir além, mas não vou falar mais para não deixar os outros com inveja... (risos)


Depois do teatro e da tevê, vocês pretendem trabalhar juntos também no cinema. Quando será?
O Miguel já quer começar a rodar Polaróides Urbanas em outubro. Esse não sossega nunca... (risos) Mas, por um lado é bom, afinal, nunca fiz cinema como gostaria, só participações... No Polaróides, tenho um grande papel, o de Nize, uma atriz decadente que surta no meio de uma tragédia grega e morre bem ali, na frente do público. Sempre pensei porque não me chamaram para interpretar um bom personagem também no cinema... Nessas horas, olhava para uns e outros e ficava com ciúmes. Aí, pensava: "Olha lá, Arlete, não vai ficar com inveja, porque você não é disso...". E não sou mesmo. Sempre fui feliz no teatro e na tevê. Não se pode ganhar todas...

Estilo transgressor

Um dos traços marcantes da personalidade de Arlete Salles é a postura transgressora. Arretada, ela reconhece que não gosta das coisas "muito certinhas", principalmente no campo afetivo.

"Sempre acabo contrariando as convenções", admite. De fato, Arlete só tinha 16 anos quando casou-se grávida do então namorado, o ator Lúcio Mauro. Com ele, foi casada por 15 anos e teve dois filhos, Alexandre e Gilberto, hoje com 44 e 35 anos, respectivamente.

"Não dá para agir igual a todo mundo. Mesmo porque somos todos diferentes. Podemos até ser parecidos, mas nunca iguais...", frisa.

Atualmente, Arlete Salles mora com a mãe, Severina, de 84 anos, o caçula e duas cachorras, Kika e Akira, numa confortável casa de três andares no Jardim Botânico, Zona Sul do Rio. Discreta em relação ao seu novo namorado, o professor de dança Álvaro Reis, 26 anos mais jovem, Arlete é adepta do lema "cada um na sua". "Meu companheiro é sempre bem-vindo: mas eu na minha casa e ele, na dele. A convivência atrapalha o romantismo", acredita a atriz, dando por encerrado o assunto.

Para manter a disposição, a atriz não abre mão de seguir uma alimentação moderada e, principalmente, de praticar exercícios diários, como aeróbica e musculação. Quando sobra tempo nas gravações de A Lua Me Disse, arrisca também umas caminhadas pela Lagoa Rodrigo de Freitas.

"Não gosto de ficar muito tempo parada. Sinto como se estivesse desperdiçando tempo e vida", justifica. Em nome da vaidade, Arlete já colocou até silicone nos seios e aplicou botox no rosto. "Para ficar bonita, a gente toma até injeção na testa. Literalmente!", graceja ela.





Fonte: Terra TV